13
Julho
2015
Os Moscatéis Horácio Simões
Categoria Clipping Notícias
Os Moscatéis Horácio Simões

A casa Horácio Simões figura, por direito próprio, entre os melhores produtores de moscatéis de Setúbal. Nesta prova avaliamos 14 exemplares que demonstram as virtudes de um projectode família, em que diferentes gerações cruzam trabalho em nome de grandes vinhos. O Moscatel de Setúbal insiste em manter-se algo afastado da lista dos grandes vinhos generosos nacionais, sendo frequentemente desconsiderado e outras tantas vezes injustiçado por uma larga fatia de enófilos portugueses e estrangeiros. Continua a ser um vinho incompreendido e tantas vezes desrespeitado, não só pelos consumidores mas tantas vezes pelos próprios produtores, que raramente o tratam com a reverência e precisão exigida para um vinho tão comovente. A maior dificuldade do Moscatel reside na doçura, na doçura extrema que poderá ser brilhante se estiver acompanhada por uma acidez incisiva… mas poderá ser penosa se destituída da acidez que o esperte da modorra e planura das notas tradicionais de mel e laranja. Do Moscatel podemos sempre esperar o melhor e o pior. A maioria dos vinhos Moscatel portugueses revela, infelizmente, ser de qualidade mediana, com vinhos que frequentemente são simplesmente monótonos pela falta de frescura e pelo ónus do excesso de torrados, mel e laranja cristalizada. Mas, nos melhores exemplos, o Moscatel de Setúbal consegue chegar ao arrebatamento vínico, apesar de serem poucos os que nos aproximam do sagrado. O que representa um drama para a região e um dos principais defeitos do Moscatel, a escassez de produtores de referência. A ausência de alternativas é uma dificuldade de monta para a definição do estilo, para a região e para os três produtores de referência no Moscatel de Setúbal, também eles fortemente prejudicados pela inexistência de rivalidade e de inovação. O que diferencia os melhores vinhos Moscatel de Setúbal dos restantes Moscatel do mundo, a sua senha de identidade, é a acidez refrescante presente nos melhores vinhos, a frescura retemperadora, a irrequietude do espículo da acidez. É essa acidez elevada que tonifica e revigora os vinhos doces, que lhes permite viver décadas de vida faustosa sem que os vinhos apresentem qualquer sinal de fraqueza. Porque os grandes Moscatel de Setúbal são vinhos inigualáveis, vinhos de vida eterna, vinhos de uma complexidade e riqueza brutais, vinhos que ombreiam com o que de melhor se faz no mundo. E ainda mais quando em causa está a variedade Moscatel Roxo, uma idiossincrasia da região de Setúbal, uma mutação genética que ao transformar o Moscatel numa casta rosada lhe acrescentou beleza, subtileza e pureza. Entre os poucos que a sabem trabalhar encontra-se a casa Horácio Simões, um especialista em vinhos Moscatel que entrou por direito próprio no santuário do Moscatel, assegurando para si próprio um lugar no triunvirato de excelência do Moscatel de Setúbal. A casa mantém-se em posse familiar e enquanto a quarta geração assumiu a condução do negócio, tanto na gestão como na viticultura e enologia, a segunda e a terceira gerações mantêm-se ativas numa vivência diária de trabalho intenso e dedicação total, que só as empresas familiares conseguem preservar. Apesar dos pergaminhos das quatro gerações e do longo tempo de atividade, a casa Horácio Simões só começou a engarrafar vinhos Moscatel com marca própria já no início da década de 90. Até esse momento divisório na vida da família, os vinhos eram vendidos a terceiros que os engarrafavam diretamente com marca própria ou que os aproveitavam para os seus lotes. Foi com o início de produção sob o nome da Casa Horácio Simões que chegou o momento de seguir um estilo próprio, de definir as opções estéticas e enológicas que permitissem diferenciar e singularizar os Moscatel da casa das outras duas grandes referências da região. A opção familiar, que continua a manter-se como o modelo atual e previsível para o futuro, foi deixar seguir o ano agrícola em pleno, sem empreender grandes esforços na adega para corrigir, atenuar ou enfatizar o que a natureza oferece em cada ano. Mas também criar vinhos para o envelhecimento, que possam ser mantidos com o mínimo de correcções na adega, álcool incluído. Por isso, os vinhos são fortificados para um volume alcoólico superior à norma em Setúbal, que possa compensar as perdas futuras por evaporação, eliminando qualquer tipo de correção posterior. O objetivo é deixar que seja o tempo a encarregar-se de doutrinar os vinhos e que estes se possam manter em repouso absoluto por um período mínimo de cinco anos, durante os quais pouco ou nada se Interfere. O que poderá ajudar a explicar os motivos para que os vinhos presentes nesta prova vertical, apesar de manterem um fio condutor, mostrem variações tão perentórias entre colheitas. Mudanças que são ainda exacerbadas pela presença de aguardentes distintas em algumas colheitas que potenciam essa diferença para valores estratosféricos. Mais que variações na qualidade absoluta são variantes de perfil e estilo que tornam a prova mais rica… mas que também podem perturbar a vida do consumidor. O que é certo, é que a qualidade média dos 14 vinhos Horácio Simões Moscatel Roxo é elevadíssima, oferecendo a garantia e confirmação que a casa se encontra entre a elite dos Moscatel de Setúbal. Uma elite que sai reforçada nos dois lotes chamados Excellent, lotes que grosso modo resumem e combinam vinhos da década de 90 do século passado e da primeira década deste século, vinhos que elevam a casa Horácio Simões ao estatuto dc verdadeira excelência.

 

in Revista Wine - Essência do Vinho, texto de Rui Falcão

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