28
Fevereiro
2015
As areias e a Serra - Azeitão é uma região que tem tudo o que alegra o verdadeiro apreciador de vinhos
Categoria Clipping
As areias e a Serra - Azeitão é uma região que tem tudo o que alegra o verdadeiro apreciador de vinhos

Por ali há tortas para acompanhar o cafezinho e há oliveiras milenares à beira da estrada, para deleite do olhar. Mas há, sobretudo, vinhas por todo o lado. 
E nem precisa sair da estrada: mesmo à entrada da povoação há vinhedos bem tratados e adegas de enorme dimensão. As areias, tão características da margem sul, marcam o compasso dos solos na maior parte da região, sobretudo se formos em direcção de Marateca, Algeruz ou Fernando Pó. 
Olhando para o chão não se percebe mesmo como é que aqui se plantam cepas; parece que estamos na praia. De facto a camada de areia é superficial e o solo, que segura a cepa, está a pouca profundidade. Pensar que só agora se descobriram as virtudes da região é erro crasso: já nos finais do séc. XIX existia no Poceirão a maior vinha do mundo e mesmo em pleno séc. XX a herdade do Rio Frio chegou a ter 2000 ha de vinha. 
A fama de produzir bons vinhos é, assim, bem antiga. Mas não há só as areias de Palmela e Fernando Pó; há também os terrenos argilo-calcários da serra da Arrábida, terra por excelência do moscatel de Setúbal e de alguns dos melhores brancos. 
E, se continuarmos para sul, bem para sul, em Santiago do Cacém ainda estamos dentro da mesma zona vinícola. É obra. Até há pouco mais de 20 anos, falar de Setúbal era falar de três castas. O moscatel, usado para o generoso, o Fernão Pires, responsável pelos brancos e o Castelão (outrora chamado Periquita ou Castelão Francês), de que todos os tintos se reclamavam. 
Mas não é aconselhável uma região depender de uma única casta. A diversidade veio com a abertura dos Estatutos e autorizaram-se algumas novas, como Syrah ou a Touriga Nacional, e outras que já existiam foram reabilitadas, como o Aragonez e a Trincadeira. 
Nos brancos foram chamados o Arinto, o Antão Vaz e, claro, as outras castas que entretanto viraram moda, como o Alvarinho, o Chardonnay, o Sauvignon Blanc ou o Viognier. Hoje há ali de tudo e de tudo o consumidor gosta, já que a região se coloca em terceiro lugar em termos de vendas em supermercado (a seguir ao Alentejo e Vinhos Verdes) e colada ao Douro no mercado da restauração. 
Já o moscatel é o que sempre foi: um dos grandes generosos do mundo, sobretudo se tiver origem nos solos da serra. E os vinhos velhos da casa José Maria da Fonseca são disso prova viva. É verdade que os consumidores nacionais andam um pouco distraídos e não têm dado ao moscatel a atenção que merece. 
O argumento do preço alto é falso, já que alguns, como a marca JP, são muito baratos e têm imensa qualidade. E há novos produtores a mostrarem belos moscatéis. São vinhos que envelhecem bem, sobretudo em tonel; em garrafa por vezes podem turvar. Mantenha a garrafa na posição vertical e, se for caso, disso, decante o vinho para uma garrafa bonita antes de servir. Fresco, como manda o bom-gosto, claro! 


Sugestões da semana:(Os preços foram fornecidos pelos produtores) 


Damasceno branco 2012 
Região: Reg. Pen. Setúbal 
Castas: Arinto, Fernão Pires e Chardonnay 
Produtor: Sota 
Enologia: Nuno Cancela de Abreu 
Preço: €6,35 
Está no melhor ponto da evolução, a confirmar que às vezes é preciso saber esperar. 
Dica: peixes de forno ou carnes mal passadas poderão ligar bem. 


Casa Ermelinda Freitas Cabernet Sauvignon tinto 2011 
Região: Reg. Pen. Setúbal 
Casta: Cabernet Sauvignon 
Produtor: Casa Ermelinda Freitas 
Enologia: Jaime Quendera 
Preço: €8,89 
Este é terceiro maior produtor da região. O vinho tem muita estrutura e pode ser guardado em cave, sem problema. 
Dica: acompanhe com pratos de carne com forte tempero. 


Colecção Privada Domingos Soares Franco Moscatel de Setúbal 2004 
Região: Moscatel de Setúbal 
Casta: Moscatel de Setúbal 
Produtor: José Maria da Fonseca 
Enologia: equipa dirigida por Domingos Soares Franco 
Preço: €18,95 
Feito com aguardente de Armagnac, o que lhe dá um tom muito original, fresco e muito elegante.Dica: beba-se fresco, à sobremesa, com farripa de laranja ou gelado. 

in Expresso, E - a revista do Expresso, 28 de Fevereiro 2015

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